About Me

I am a priest of the Archdiocese of Tororo, Uganda since my ordination on July 4, 1998. I am currently assigned as Professor of Theology and formator at Notre Dame Seminary in the Archdiocese of New Orleans, Louisiana.

Sunday, September 6, 2026

Homiliar Ordinario 23A: Sou eu responsável pelo meu irmão?

 Homilia para o Apelo Missionário — 23.º Domingo do Tempo Comum, Ano A


Introdução

Como já fiz anteriormente, peço a vossa paciência com o meu português. Espero ter melhorado um pouco.

O tema das leituras de hoje pode ser muito bem resumido por uma pergunta que encontramos no Livro do Génesis.  Depois de Caim ter matado o seu irmão Abel, Deus pergunta-lhe: «Onde está o teu irmão Abel Naturalmente, Caim sabe onde está o seu irmão; foi ele que o matou. Mas Caim responde com aquela famosa pergunta: «Sou eu responsável pelo meu irmão

As leituras de hoje dão-nos uma resposta muito clara a esta pergunta: “Sim. Somos responsáveis pelo nosso irmão.”

Escritura e Teologia

Na primeira leitura, Deus constitui Ezequiel como sentinela para a casa de Israel. Uma sentinela tem uma responsabilidade particular. Vê o que está a acontecer e, se vê aproximar-se um perigo, deve avisar o povo.

Ao contrário de Caim no Génesis, a sentinela não pode simplesmente dizer: «Isso não é problema meu.» Não pode dizer: «Não sou responsável pelo meu irmão.» O Senhor confiou-lhe uma responsabilidade pelo povo.

Esta é também a nossa responsabilidade como cristãos. Não podemos simplesmente dizer: «Cada um tem a sua vida; deixem as pessoas fazer o que quiserem.» Às vezes, o amor exige que falemos. Às vezes, um pai tem de corrigir um filho. Às vezes, um amigo tem de advertir um amigo. Às vezes, a Igreja tem de nos chamar de volta quando nos afastamos do caminho.

É disso que Jesus fala no Evangelho de hoje. Diz-nos que, se o nosso irmão pecar, não devemos simplesmente afastar-nos. Devemos ir ter com ele. Devemos falar com ele em privado.

Reparem nas palavras de Jesus: «Se te ouvir, terás ganho o teu irmão  O objetivo não é derrotá-lo. O objetivo não é provar que temos razão. E, às vezes, essa é a parte mais difícil. Podemos estar mais interessados em ganhar a discussão do que em ganhar o nosso irmão!  O objetivo é ganhar o nosso irmão. Porquê? Porque ele é nosso irmão. Porque ela é nossa irmã.

Jesus continua, indicando outros passos para procurar trazer a pessoa de volta quando a primeira tentativa não resulta. Mas reparem que todos esses passos têm o mesmo objetivo: cuidar da alma do nosso irmão que se desviou e ajudá-lo a regressar à comunidade.

Se sou responsável pelo meu irmão quando a sua alma está em perigo, então certamente também sou responsável por ele quando o seu corpo está a sofrer.

É por isso que, em muitos episódios dos Evangelhos, Jesus não se limita a chamar as pessoas à conversão. Ele também as alimenta, cura-as e devolve-lhes uma vida plena. E pede aos seus discípulos que façam o mesmo.  É por isso também que, no Juízo Final, Jesus apresenta a nossa maneira de tratar os famintos, os sedentos, os doentes como uma manifestação do nosso amor por Ele.

A razão pela qual as leituras nos desafiam desta maneira — a cuidar tanto da alma como do corpo dos nossos irmãos e irmãs — é porque não somos simplesmente um conjunto de indivíduos que, por acaso, adoram no mesmo edifício. Somos uma família. Estamos a fazer este caminho juntos. Somos irmãos e irmãs em Cristo. É por isso que Jesus termina esta passagem com aquelas belas palavras: «Onde dois ou três estiverem reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles

Vida Cristã

Durante os últimos dois anos, vós, paroquianos desta comunidade, tendes sido sentinelas e responsáveis pelos vossos irmãos e irmãs, tanto aqui na vossa própria comunidade como no Uganda. O vosso apoio financeiro e as vossas orações têm ajudado a garantir que o Evangelho seja anunciado e que algumas das necessidades materiais do nosso povo sejam atendidas. Entao, tendes ajudado a Igreja no Uganda a cuidar tanto das suas almas como dos seus corpos.

Deixai-me partilhar convosco dois exemplos — um espiritual e outro material.

O evangelho chama-nos à conversão. Às vezes, o Evangelho desafia até culturas inteiras a mudarem alguns dos seus comportamentos.  Em Uganda por exemplo, os sacerdotes têm de pregar sobre alguns dos problemas que afetam as nossas famílias: a poligamia, a violência doméstica, a gravidez na adolescência e a negligência das crianças, sobretudo das meninas.

Tal como Evangelho de hoje diz, recentemente tive de falar com um pai que se recusava a mandar as suas filhas para a escola simplesmente porque eram meninas.  O argumento dele era: «Elas vão casar-se. Por que ir para a escola?»

Eu disse-lhe: «O que há de errado em elas receberem uma educação e depois casarem-se? Porque não podem ter as duas coisas?» Depois falei-lhe da dignidade inerente a cada ser humano. Recordei-lhe o exemplo de Jesus, que tratava as mulheres com dignidade. Falei-lhe de Maria Madalena, a quem o Senhor confiou o primeiro anúncio da sua Ressurreição aos Apóstolos. Recordei-lhe o papel da Virgem Maria na nossa salvação. E falei-lhe também das muitas mulheres santas da Igreja que deram testemunho do Evangelho.

É isto que significa ser uma sentinela.  Às vezes, ser responsável pelo nosso irmão significa ter a coragem de dizer: «Aquilo que estás a fazer está errado», mas dizê-lo porque queremos algo melhor para essa pessoa e para aqueles que lhe foram confiados.

Fiquei muito contente quando soube recentemente que as meninas estão agora a frequentar a nossa escola católica.  E vós fizestes parte dessa história. Através do vosso apoio à missão da Igreja, ajudais a tornar possíveis as escolas onde essas meninas estão agora a receber a sua educação.

E depois houve a mãe que conheci, cuja filha estava doente há vários dias. Ela não tinha dinheiro para a levar à clínica.

Disse-lhe que levasse a menina e dissesse às religiosas que eu pagaria a conta, graças a uma oferta que alguém me tinha dado. As religiosas examinaram a menina e encontraram várias doenças que podiam ser facilmente tratados. A conta total do tratamento foi de cerca de 30 dólares.

Trinta dólares foram suficientes para dar àquela menina os cuidados médicos de que precisava. Através da vossa ajuda, pude ser responsável por aquela mãe e pela sua filha.

Num caso, ser responsável ou sentinela pelo nosso irmão significou dizer a verdade para ajudar alguém a mudar. No outro, significou ajudar alguém que estava doente e não podia ajudar-se a si próprio.

Conclusão

Irmãos e irmãs, enquanto fazemos o nosso caminho para o Céu, não precisamos apenas de salvar-nos a nós próprios; precisamos também de ajudar-nos uns aos outros ao longo do caminho. E se chegarmos ao Céu sozinhos e o Senhor nos perguntar: «Onde está o teu irmão? Onde está a tua irmã?»

·       Espero que não respondamos como Caim, dizendo: «Por favor, deixe-me entrar no Céu; pode preocupar-se com os outros mais tarde.»

·       Mas vós já respondestes a essa pergunta através da vossa generosidade e das vossas orações. Podeis dizer ao Senhor: «Os meus irmãos e irmãs vêm de muito longe, do Uganda, mas em breve estarão aqui.»

Por isso, agradeço-vos não apenas aquilo que talvez ofereçais hoje, mas tudo aquilo que já destes no passado.

Que Deus abençoe a todos vós, as vossas famílias, esta paróquia e todos os nossos irmãos e irmãs no Uganda. E que um dia possamos todos chegar juntos à casa do nosso Pai.

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