Homilia para o Apelo Missionário — 23.º Domingo do Tempo Comum, Ano A
Introdução
Como já fiz
anteriormente, peço a vossa paciência com o meu português. Espero ter melhorado
um pouco.
O tema das
leituras de hoje pode ser muito bem resumido por uma pergunta que encontramos
no Livro do Génesis. Depois de Caim ter
matado o seu irmão Abel, Deus pergunta-lhe: «Onde está o teu irmão Abel?»
Naturalmente, Caim sabe onde está o seu irmão; foi ele que o matou. Mas Caim
responde com aquela famosa pergunta: «Sou
eu responsável pelo meu irmão?»
As leituras de
hoje dão-nos uma resposta muito clara a esta pergunta: “Sim.
Somos responsáveis pelo nosso irmão.”
Escritura e Teologia
Na primeira
leitura, Deus constitui Ezequiel como sentinela para a casa
de Israel. Uma sentinela tem uma responsabilidade particular. Vê o que está a
acontecer e, se vê aproximar-se um perigo, deve avisar o povo.
Ao contrário de
Caim no Génesis, a sentinela não pode simplesmente dizer: «Isso não é problema meu.» Não pode dizer: «Não sou responsável pelo meu irmão.» O Senhor confiou-lhe uma
responsabilidade pelo povo.
Esta é também a
nossa responsabilidade como cristãos. Não podemos simplesmente dizer: «Cada um
tem a sua vida; deixem as pessoas fazer o que quiserem.» Às vezes, o amor exige
que falemos. Às vezes, um pai tem de corrigir um filho. Às vezes, um amigo tem
de advertir um amigo. Às vezes, a Igreja tem de nos chamar de volta quando nos
afastamos do caminho.
É disso que Jesus
fala no Evangelho de hoje. Diz-nos que, se o nosso irmão pecar, não devemos
simplesmente afastar-nos. Devemos ir ter com ele. Devemos falar com ele em
privado.
Reparem nas
palavras de Jesus: «Se
te ouvir, terás ganho o teu irmão.» O
objetivo não é derrotá-lo. O objetivo não é provar que temos razão. E, às
vezes, essa é a parte mais difícil. Podemos estar mais interessados em ganhar
a discussão do que em ganhar o nosso irmão!
O objetivo é ganhar o nosso irmão. Porquê? Porque ele é
nosso irmão. Porque ela é nossa irmã.
Jesus continua,
indicando outros passos para procurar trazer a pessoa de volta quando a
primeira tentativa não resulta. Mas reparem que todos esses passos têm o mesmo
objetivo: cuidar da alma do nosso irmão que se desviou e ajudá-lo a regressar à
comunidade.
Se sou responsável
pelo meu irmão quando a sua alma está em perigo, então certamente também sou
responsável por ele quando o seu corpo está a sofrer.
É por isso que,
em muitos episódios dos Evangelhos, Jesus não se limita a chamar as pessoas à
conversão. Ele também as alimenta, cura-as e devolve-lhes uma vida plena. E
pede aos seus discípulos que façam o mesmo.
É por isso também que, no Juízo Final, Jesus apresenta a nossa maneira
de tratar os famintos, os sedentos, os doentes como uma manifestação do nosso
amor por Ele.
A razão pela qual
as leituras nos desafiam desta maneira — a cuidar tanto da alma como do corpo
dos nossos irmãos e irmãs — é porque não somos simplesmente um conjunto de
indivíduos que, por acaso, adoram no mesmo edifício. Somos
uma família. Estamos a fazer este caminho juntos. Somos irmãos e irmãs em
Cristo. É por isso que Jesus termina esta passagem com aquelas
belas palavras: «Onde dois ou três
estiverem reunidos em meu nome, Eu estou no meio deles.»
Vida Cristã
Durante os
últimos dois anos, vós, paroquianos desta comunidade, tendes sido sentinelas e
responsáveis pelos vossos irmãos e irmãs, tanto aqui na vossa própria
comunidade como no Uganda. O vosso apoio financeiro e as vossas orações têm
ajudado a garantir que o Evangelho seja anunciado e que algumas das
necessidades materiais do nosso povo sejam atendidas. Entao, tendes ajudado a
Igreja no Uganda a cuidar tanto das suas almas como dos seus corpos.
Deixai-me
partilhar convosco dois exemplos — um espiritual e outro material.
O evangelho
chama-nos à conversão. Às vezes, o Evangelho desafia até culturas inteiras a
mudarem alguns dos seus comportamentos.
Em Uganda por exemplo, os sacerdotes têm de pregar sobre alguns dos
problemas que afetam as nossas famílias: a poligamia, a violência doméstica, a
gravidez na adolescência e a negligência das crianças, sobretudo das meninas.
Tal como
Evangelho de hoje diz, recentemente tive de falar com um pai que se recusava a
mandar as suas filhas para a escola simplesmente porque eram meninas. O argumento dele era: «Elas
vão casar-se. Por que ir para a escola?»
Eu disse-lhe: «O
que há de errado em elas receberem uma educação e depois casarem-se? Porque não
podem ter as duas coisas?» Depois falei-lhe da dignidade
inerente a cada ser humano. Recordei-lhe o exemplo de Jesus, que tratava as
mulheres com dignidade. Falei-lhe de Maria Madalena, a quem o Senhor confiou o
primeiro anúncio da sua Ressurreição aos Apóstolos. Recordei-lhe o papel da
Virgem Maria na nossa salvação. E falei-lhe também das muitas mulheres santas
da Igreja que deram testemunho do Evangelho.
É isto que
significa ser uma sentinela. Às vezes,
ser responsável pelo nosso irmão significa ter a coragem de dizer: «Aquilo
que estás a fazer está errado», mas dizê-lo porque queremos
algo melhor para essa pessoa e para aqueles que lhe foram confiados.
Fiquei muito
contente quando soube recentemente que as meninas estão agora a frequentar a
nossa escola católica. E
vós fizestes parte dessa história. Através do vosso apoio à missão
da Igreja, ajudais a tornar possíveis as escolas onde essas meninas estão agora
a receber a sua educação.
E depois houve a
mãe que conheci, cuja filha estava doente há vários dias. Ela não tinha
dinheiro para a levar à clínica.
Disse-lhe que
levasse a menina e dissesse às religiosas que eu pagaria a conta, graças a uma
oferta que alguém me tinha dado. As religiosas examinaram a menina e
encontraram várias doenças que podiam ser facilmente tratados. A conta total do
tratamento foi de cerca de 30 dólares.
Trinta dólares
foram suficientes para dar àquela menina os cuidados médicos de que precisava. Através
da vossa ajuda, pude ser responsável por aquela mãe e pela sua filha.
Num caso, ser
responsável ou sentinela pelo nosso irmão significou dizer a verdade para
ajudar alguém a mudar. No outro, significou ajudar alguém que estava doente e
não podia ajudar-se a si próprio.
Conclusão
Irmãos e irmãs,
enquanto fazemos o nosso caminho para o Céu, não precisamos apenas de
salvar-nos a nós próprios; precisamos também de ajudar-nos uns aos outros ao
longo do caminho. E se chegarmos ao Céu sozinhos e o Senhor nos perguntar: «Onde
está o teu irmão? Onde está a tua irmã?»
· Espero que não respondamos como Caim,
dizendo: «Por favor, deixe-me entrar no Céu; pode preocupar-se com os
outros mais tarde.»
· Mas vós já respondestes a essa pergunta
através da vossa generosidade e das vossas orações. Podeis dizer ao Senhor: «Os
meus irmãos e irmãs vêm de muito longe, do Uganda, mas em breve estarão aqui.»
Por isso,
agradeço-vos não apenas aquilo que talvez ofereçais hoje, mas tudo aquilo que
já destes no passado.
Que Deus abençoe a todos vós, as vossas famílias, esta paróquia e todos os nossos irmãos e irmãs no Uganda. E que um dia possamos todos chegar juntos à casa do nosso Pai.